segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Bons tempos

(...) Da naturalidade das ruas para o artificialismo dos laboratórios do marketing - eis a mudança nas feições das campanhas. Abertas, emotivas, participativas tornaram-se fechadas, frias, racionais.
Voltemos a 1950, quando Getúlio Vargas fez uma das mais brilhantes campanhas da história eleitoral. Intercalava o ideário abrangente com um discurso para cada canto. Em 10 de agosto, em São Paulo, por exemplo, pronunciou um discurso versando sobre o poderio da terra bandeirante, o dever da União para com o Estado, o saneamento financeiro do País, as diretrizes para uma política industrial e as bases do trabalhismo, concluindo com a exaltação do vínculo entre democracia política e democracia econômica. Ali se descrevia o estado da Nação. Regiões e cidades recebiam uma palavra específica, com diagnóstico e solução para os problemas. Ali estava o conceito de descentralização. Na peroração de São Borja, em 30 de setembro, passava a receita do sucesso: "Da vastidão amazônica a estas fronteiras meridionais, das populações de beira-mar às do Brasil central, o povo me acolheu carinhosamente, e mais me falou dele do que eu de mim, transmitindo-me as suas queixas, as amarguras e dificuldades atuais." Ouvir o povo, eis o mote.
(...)
Mas o sistema eleitoral, é oportuno dizer, favorecia o coronelismo. Cédulas eram produzidas pelos próprios candidatos e distribuídas pelos cabos eleitorais. O eleitor também as encontrava no local de votação. Chapas de adversários dos coronéis eram retiradas das urnas. Os eleitores recebiam envelopes com "o voto certo". (Eis uma historinha da época: "Coronel, em que estou votando?" Resposta áspera: "O voto é sigiloso, cabra, não é de sua conta.")
Nesse terreno, o País avançou, e muito. O domínio dos caciques decresce, apesar de ainda forte em algumas regiões. Mas nas áreas do discurso e da mobilização das massas há muito por fazer. A descrença e a desmotivação do eleitorado, a pasteurização ideológica, o declínio dos partidos e o distanciamento entre o arco político e a esfera social estão por trás do artificialismo das campanhas eleitorais. (...)
Texto completo em: Onde estão as grandes ideias?
15 de agosto de 2010 | 0h 00
Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo

Nenhum comentário: