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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Calligaris sobre os saques de Londres

Uma das melhores análises que li sobre o assunto (RX).

Saques, arrastões e “ressentiment” – Contardo Calligaris

FSP, quinta-feira, 01 de setembro de 2011

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Na nossa época, futilidades são, no mínimo, tão relevantes e necessárias quanto era o pão em 1789
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A turba que afugentou Luís 16 e Maria Antonieta de Versailles, em 1789, pedia pão porque estava com fome.
A turba de Londres em 2011 pedia bugiganga eletrônica e roupa de marca -artigos que, aos olhos de muitos, parecem não ser de primeira necessidade. Ou seja, aparentemente, a violência da turba de 1789 talvez fosse justificada, mas a de 2011 não é.

No domingo passado, na Folha, Eliane Trindade escreveu sobre meninas de rua que praticam arrastões em São Paulo. Elas procuram produtos para alisar o cabelo, celulares cor-de-rosa e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos.
Alguém estranha que elas não prefiram uma comida boa ou uma roupa quente? Como disse uma menina, o que elas querem é ser bonitas (claro, nos moldes da cultura de massa). Será que, como a turba de Londres, elas seriam culpadas por não desejarem bens “de primeira necessidade”?

Não penso assim - e não é por indulgência com assaltos e arrastões. É porque, na nossa época, as “futilidades” são, no mínimo, tão relevantes e tão necessárias quanto era o pão em 1789. Explico.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Good news is good news

Os jornalistas costumam citar a máxima "good news is bad news" para justificar a ênfase dos noticiários nas tragédias, crimes, acidentes e toda sorte de desgraças: elas atingem de alguma forma um amplo público, fogem do esperado, trazem uma alta carga de emoção, enfim, correspondem, mais do que o insípido quotidiano da normalidade, aos "critérios de noticiabilidade".

Mas os jornais britânicos, em face dos recentes distúrbios em Londres e outras grandes cidades, têm apresentado uma equilibrada visão dos dois lados da moeda. A violência dos desordeiros e a reação das comunidades atingidas, que se organizam em mutirões de limpeza e reconstrução e recolhem milhares de libras de doações particulares para ajudar moradores e lojistas atingidos. Os assaltos, incêndios e saques não foram coisa de bairros pobres, ou de imigrantes, contra zonas ricas ou grandes cadeias de lojas. Barbearias, oficinas, pubs, pequenas lojas de bairro foram arrasadas. (Ver por exemplo http://www.thisislondon.co.uk/standard/article-23977403-only-25p-left-but-i-will-start-again-for-my-girls-and-new-family-of-neighbours.do)


Foto:Amy Weston
Brancos, negros, árabes, indianos estiveram igualmente dos dois lados, atacando ou sendo atacados. A mulher fotografada pulando da janela de uma casa em chamas era uma imigrante polonesa, há menos de seis meses na Inglaterra.  São as mesmas pessoas, às vezes da mesma família, que se encontram de um lado e de outro. A mãe de uma moça que participou dos saques viu a filha na televisão e avisou a polícia. Vizinhos se organizam, pelo Facebook ou pelo Twitter, para identificar e apontar os agressores.

 Há muito ainda para entender e explicar em relação aos explosivos acontecimentos desta semana. Nem conflito racial, nem luta de classes - talvez um derramamento do exacerbado desejo de consumo aliado à sensação de que enfim tudo era possível, de que nada poderia se interpor a vontade de ter e o poder de pegar e levar?  Os "normais", nesse caso - os certinhos, as pessoas que procuravam defender suas lojas, suas casas -, eram atacados como desmancha-prazeres, incômodas testemunhas das regras que se tratava exatamente de romper.

Do ponto de vista da cobertura da mídia, em todo o caso, restou um saldo positivo: a conclusão de que boas notícias são também... boas notícias.



terça-feira, 9 de agosto de 2011

Londres está pegando fogo

Há três dias, os distúrbios correm soltos em Londres. Jovens, meninos e meninas, alguns com 10 anos ou pouco mais, quebram vitrines, saqueiam lojas, incendeiam carros, em tumultos que começaram em bairros periféricos mas que já atingem zonas mais centrais e bairros de classe média.
Para falar a verdade, tivemos pouca experiência direta desses acontecimentos. Sirenes soando frenéticas e carros de polícia correndo pela cidade era o que tínhamos visto até hoje. Mas essa tarde a avenida (Tottenham Court Road) perto da nossa casa tinha uma centena de policiais patrulhando, e ao voltar do meu curso vi vitrines quebradas e lojas fechadas ou fechando mais cedo. No restaurante onde jantamos pessoas telefonavam cancelando as reservas.
A polícia parece indecisa: se age muito duramente, é acusada de brutalidade; se pega mais leve, se torna inoperante...
O primeiro ministro, que estava de férias na Itália, teve de voltar às pressas, e pediu que o Parlamento abrevie o recesso e antecipe a volta para esta quinta-feira. Prometeu punição exemplar aos desordeiros, independentemente da idade. "Se tiveram idade para cometer os crimes, terão idade para pagar por eles", foi mais ou menos o que disse.

Ainda não li nenhuma boa análise desses fatos (na verdade só tenho lido sobre estatística, nesses últimos dias), mas tenho a impressão de que ninguém sabe muito bem por que tudo isso está acontecendo, aqui, agora. Nem dá para avaliar as possíveis repercussões sobre os Jogos Olímpicos do ano que vem...