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domingo, 10 de abril de 2011

A crise da representação (2)

No mundo todo, o poder legislativo, junto com os partidos e os políticos estão entre as instituições e profissões menos prestigiadas e alvo de maior desconfiança. Contudo, a preferência pela democracia e a participação eleitoral permanecem relativamente altas.

Como resolver, ou pelo menos entender, essa contradição? As pessoas querem democracia, querem votar, mas não confiam nas instituições e nas pessoas que as representam. Embora as notas atribuídas ao poder executivo (“governo”), sobretudo local, e ao “seu” representante (o parlamentar em quem cada um votou) sejam mais altas, tampouco a esse nível se pode identificar uma grande satisfação da sociedade.

Está na hora, parece, de parar um pouco de buscar remendos superficiais ou profundos nas regras eleitorais, para pensar com fôlego mais amplo no fenômeno da crise da representação. Por que acreditar que mudanças nas regras eleitorais fariam grande diferença, se o desapreço pelo parlamento atinge praticamente todos os países (os escandinavos são uma honrosa exceção), cujos sistemas eleitorais são os mais diversos?

Voltamos, então, ao cerne da questão. O que significa “representar”? Que sentido faz acreditar que um pequeno grupo de pessoas nos “representa” no parlamento? E quem é esse “nós”, pretensamente lá representado?

sábado, 2 de abril de 2011

Crise da representação (I)

Andei pesquisando sobre a imagem do Congresso (Parlamento, Legislativo Nacional, Knesset) no Brasil e no mundo.

No Brasil, todos podem adivinhar o que deu: confiança muito baixa, avaliação altamente negativa. A série DataFolha está aí para quem quiser conferir. Mas o que me chamou a atenção foi outra coisa: o fato de que as variações dessa opinião negativa não são amplas.

Seja em períodos de escândalos, seja em períodos em que o Congresso deveria estar de bem com os cidadãos, por ter produzido ou estar debatendo importantes leis de interesse geral, a opinião pública não varia muito. Ao longo de 10 anos, pouco se afastou do patamar dos meros 15% de ótimo/bom contra os 40% em torno dos quais giram as médias de regular e ruim/péssimo.

Imagem do Congresso-Série DataFolha
Isto faz pensar em alguma tendência mais profunda, resultado de um conjunto de causas estruturais que precisam ser investigadas.

A primeira ideia que tive foi de olhar como são as coisas no resto do mundo. E para minha surpresa, constatei que a situação é muito semelhante, seja na América Latina, seja na Europa, nos Estados Unidos ou em Israel. Em Israel, o Knesset determinou a realização de um profundo estudo, ao descobrir, em 2001, que só 14% dos entrevistados manifestava muita ou total confiança no Parlamento. E o estudo descobriu que em praticamente todo o mundo a situação é a mesma.

Não vou sobrecarregar esta conversa com montes de tabelas, mas esses resultados são tão generalizados que no mundo inteiro já se fala há um bom tempo de uma “crise da representação”. Ora, mesmo considerando que o tempo histórico tem outro ritmo, uma “crise” seria um problema agudo, uma ruptura, algo que só pode ser entendido contra o pano de fundo de uma situação de normalidade ou de equilíbrio. Só que, neste caso, a crise se prolonga tanto que já não há mais referência àquela relação ideal, a ser restabelecida.

Primeiro problema: será que essa situação ideal alguma vez existiu? Representados e representantes em perfeito (ou pelo menos razoável) acordo, confiantes e felizes uns com os outros? Já em 1774 o inglês Edmund Burke achou importante se dirigir aos eleitores de Bristol para lembrar que