terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O espírito de Talleyrand

Para descansar um pouco da nossa massacrante política, fui rever umas tiradas de Talleyrand, figura notável da política e da diplomacia francesa sob diversos regimes (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles-Maurice_de_Talleyrand-Périgord). Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros de Napoleão, que terminou por destituí-lo, em janeiro de 1809, chamando-o de "uma merda em meias de seda" por sua traição na guerra contra a Áustria e a coalizão européia.

 Concluo que de fato não há nada de novo debaixo do sol...



Das Constituições



"Bonaparte, alors Premier Consul, ayant chargé 
Roederer de rédiger un projet de Constitution pour 
la République cisalpine, Roederer présenta deux projets, 
l'un, fort court, qui se bornait à l'établissement des 
pouvoirs, l'autre, mêlé de dispositions qui pouvaient 
tout aussi bien être laissées au pouvoir législatif. 

En remettant ces projets à M. de Talleyrand, 
Roederer le pria de conseiller au Premier Consul de 
prendre la première: « Il faut, disait-il, qu'une Consti- 
tution soit courte et... » Il allait ajouter « claire » 
M. de Talleyrand l'interrompit: 

« Oui, courte et obscure. » 


https://archive.org/stream/lespritdemdetall00thomuoft/lespritdemdetall00thomuoft_djvu.txt


Da escolha do presidente da Assembléia Constituinte

Mirabeau, cujo rosto era marcado
pela varíola.

Dans une des premières séances de l'Assemblée 
constituante, comme il s'agissait d'élire le président, 
M. de Mirabeau demanda la parole pour indiquer à ses 
collègues les conditions de caractère et de talent qu'ils 
devaient chercher dans celui qui serait appelé par l'élec- 
tion à l'honneur de présider l'Assemblée. Il entra dans 
rénumération des qualités avec un détail de circons- 
tances tel qu'il n'était pas possible de ne pas reconnaître 
l'orateur lui-même dans l'idéal qu'il présentait d'un 
président accompli. 

M. de Talleyrand, craignant qu'une partie de 
l'Assemblée n'eût pas suffisamment compris, ajouta 
de manière à être entendu de ceux qui l'entouraient ; 
« Il ne manque qu'un trait à ce que vient de dire M. de 
Mirabeau ; c'est que le président doit être marqué de la 
petite vérole. » 




Recife, fevereiro de 2015,

domingo, 11 de maio de 2014

Getúlio Vargas

Na esteira do recente lançamento do filme Getúlio, com Tony Ramos no papel título, fui buscar um texto que escrevi em 1991, depois de assistir no Palácio do Catete a peça Getúlio Vargas, o tiro que mudou a história, de Aderbal Freire-Filho, na qual Cláudio Marzo fazia o papel do presidente.

Aí vai, quase sem retoques, meu ensaio de "crítica teatral", como saiu na ocasião.




DA VIDA PARA A HISTÓRIA (E VICE-VERSA)

"A vontade como princípio da ação": este lema de Aderbal Freire-Filho, diretor do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, poderia também descrever a trajetória e a luta do personagem central da peça que, nas noites de segundas, terças e quartas-feira, reanima o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro: Getúlio Vargas, o tiro que mudou a história. 
O espetáculo celebra - num sentido quase religioso - a paixão e morte da grande figura paterna do Brasil moderno: Getúlio, "o pai dos pobres", o pai da nação industrializada partejada pela Revolução de 30, a partir das contradições de uma sociedade que já não cabia no velho figurino político e econômico imposto pelas elites agrárias regionais, e que a vontade férrea do caudilho arrastou para o século XX. 

Via-sacra
O cenário da peça é o mesmo - os móveis, os quadros, os lustres, as estátuas de bronze, tudo meio pesado, meio barroco para o gosto atual - onde se desenrolou a ação. Os personagens se deslocam através dos salões, das escadas, dos quartos do Palácio, e o público os acompanha. Mistura de via-sacra com coro de tragédia clássica, vamos sentindo a transformação, de testemunhas a participantes do drama. São 70 espectadores em cada sessão, de início um irriquieto e heterogêneo grupo de estranhos - jovens de tênis, grupos de senhoras, casais de turistas, um japonês, algumas crianças, um senhor idoso de bengala, apoiado por duas pessoas ao caminhar - depois cada vez mais sérios, atentos e emocionados. É o drama de Getúlio, mas é o nosso drama, o destino do nosso país, o momento em que muitos fios da nossa história se entrelaçam, virando a página de uma época e abrindo outra, que - infelizmente - sabemos qual é. 

Pêsames
Quando finalmente acontece o que todos já sabiam que aconteceria - Getúlio estendido na cama, no quartinho quase monástico do último andar do Catete, o revólver na mão, "deixando a vida para entrar na história"- ali ficamos todos, perplexos, o peito oprimido, silenciosos. Difícil, nessa hora, sair da história para entrar na vida: pessoas choram, ninguém fala. Suzana Saldanha, a atriz gaúcha que faz o papel de Alzirinha, a filha-secretária-confidente-conselheira de Getúlio, conta que chegou já a receber pêsames de espectadores, ao final do espetáculo.

Nem Brizola, nem Marcello
No intervalo entre uma sessão e outra, o elenco permanece concentrado: Getúlio (Cláudio Marzo), no camarim, troca o pijama da cena final pelo terno com que presidirá a reunião ministerial; Beijo (Aderbal Freire-Filho/Benjamin Vargas, o irmão-problema que todo presidente parece destinado a ter) descansa entre as árvores do jardim do Catete, recuperando as energias para o incrível monólogo que deverá repetir dentro em pouco, no salão do piano, bêbado, irônico, assustado, desafiante.
Quem conversa conosco é Alzirinha, aliás Suzana Saldanha, forte, prestativa e discreta, na peça como fora dela. 
Orgulhosa com o sucesso, Suzana fala da filosofia e das experiências do grupo, dos planos e também das dificuldades que uma proposta de trabalho como esta encontra. Deixa passar uma pontinha de mágoa: "até agora, nem o Brizola nem o Marcello vieram assistir a peça"... Mas conta, feliz, que o trabalho no grupo tem sido extremamente gratificante. 

 Operários do ofício
"O grupo se desenvolveu a partir de uma filosofia e de uma ética próprias", diz Suzana. "Somos todos atores, produtores e operários do nosso ofício de ator. Dentro do teatro, cuidamos de tudo, da limpeza à venda dos ingressos na bilheteria." 
O  Centro é um laboratório de teatro contemporâneo, atualmente sediado no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, cedido pelo governo estadual, cujo secretário de Cultura, professor Edmundo Muniz, tem procurado apoiar o trabalho do grupo. "A nossa luta é para continuar no Teatro, mas para isso o governo deveria ter uma política de cultura, e isso é coisa difícil. Os funcionários são cedidos pelo Estado, mas os atores não têm nenhum vínculo." Suzana e Aderbal são professores universitários, na Faculdade de Letras da UFRJ. Cada ator, além do trabalho na peça, cuida também da produção e da divulgação e faz seu serviço de "operário": faxina, bilheteria... Por tudo isso, como a temporada está boa, receberam este mês 350 mil cruzeiros! 

Celebridades
Pergunto se as "celebridades" - Cláudio Marzo, Emiliano Queiroz, Rogério Fróes - atores convidados, também trabalham neste mesmo sistema. Suzana toma Cláudio Marzo como exemplo: "ele faz o Getúlio desde o início, com um envolvimento total: ele se sente Getúlio, ele vive Getúlio. É muito amigo do Aderbal. Ele tem uma ideologia de trabalho, uma ideologia política; só faz o que acredita. É um ator muito sensível. Sai do sítio dele, desce a serra todo o dia para fazer o espetáculo. Está ganhando abaixo do mercado, cerca de 1500 mil.”

Aderbal: a dimensão trágica da política
A cada momento, a conversa volta ao Aderbal. Em Getúlio Vargas, além de diretor e de ator, ele escreveu o texto, junto com Carlos Eduardo Novaes (foi de Novaes a ideia do local, o Palácio do Catete, reforçando a autenticidade), e foi parceiro de Nico Nicolaiewsky na composição das canções. No Centro, "a vontade como princípio da ação" é o seu lema: se você tem vontade (Suzana às vezes diz "desejo" em lugar de "vontade"), você faz!


Depois de uma carreira vitoriosa no teatro comercial, Aderbal luta agora por um ideal de política cultural. Afinal, ele sabe (porque é ele mesmo quem diz) que "o teatro apenas revela a dimensão trágica da política. Fora do Palácio, o Brasil ainda é a mesma peça."


sábado, 4 de janeiro de 2014

Ambientalismo, a nova religião

"The environment should compete with religion as the only compelling, value-based narrative available to humanity."

Ninguém é a favor de poluir o planeta. Mas forças poderosas estão utilizando o tema para forçar o estabelecimento de um "governo mundial" capaz de minar a soberania dos estados nacionais sobre seus recursos naturais.